Sentir falta de quem te tratou mal
Sentir falta de quem te tratou mal
É uma das coisas que as pessoas confessam com mais vergonha, e uma das mais comuns: sentir falta de quem fez mal a elas. Quase sempre vem com a mesma pergunta — «o que há de errado comigo?».
Não há nada de errado
A memória não guarda uma pessoa como um veredicto. Guarda cenas. E as cenas boas continuam boas mesmo que o conjunto tenha sido ruim. A tarde tranquila continua tendo sido tranquila. A piada continua tendo graça.
Sentir falta dessas cenas não é uma opinião sobre o que fizeram com você. São duas coisas separadas dividindo a mesma cabeça ao mesmo tempo.
Do que a gente sente falta de verdade
Muitas vezes não é da pessoa. É da versão de você que existia naquela época, ou do hábito, ou simplesmente de saber o que ia acontecer na quinta-feira. A rotina de uma relação ruim ainda é uma rotina, e perder rotina parece perder chão.
Distinguir isso ajuda mais do que discutir consigo mesmo. A pergunta não é «eu ainda gosto?», é «que parte exata me falta hoje?».
O risco real
O risco não é sentir saudade. É usá-la como prova. A cabeça faz uma armadilha limpa: se sinto falta, não pode ter sido tão grave. É por isso que as pessoas voltam — não por fraqueza, mas por um argumento que parece sólido visto de dentro.
Contra isso, o que costuma funcionar é ter escrito o que aconteceu quando você via com clareza. Seu próprio texto de seis meses atrás discute com você melhor do que qualquer amigo.
Quanto tempo dura
Mais do que dizem, e menos do que você teme. Não some em um dia específico. Fica menos frequente, e um dia você percebe que pensou nessa pessoa sem que a tarde mudasse.
Se você está no meio disso
Não se obrigue a odiar ninguém para poder seguir. Não é necessário, e além disso não funciona. Basta saber a diferença entre sentir falta e querer voltar. E se ninguém à sua volta vai te dizer isso hoje: você não está fazendo nada de errado por sentir as duas coisas.