Estou casado há muitos anos e há uma coisa que nunca consegui dizer nem aos meus amigos mais próximos: às vezes não sinto falta de outra mulher, sinto falta de não ser marido de ninguém. A minha esposa é uma boa pessoa, cuida de mim, trabalha, está presente, é ótima mãe, e justamente por isso me sinto ainda pior por pensar assim.
Não existe uma grande traição, uma violência, um escândalo que eu possa usar para explicar o que sinto. O que existe é uma vida inteira feita de prestações, supermercado, escola, sogros, férias planeadas com meses de antecedência, almoços de família, problemas dos filhos e aquela sensação de que cada minuto meu pertence a alguém.
Às vezes saio do trabalho e fico vinte minutos parado dentro do carro antes de subir para casa, sem música, sem telefone, só em silêncio. Digo que havia trânsito. A verdade é que estou a tentar ganhar uns minutos em que ninguém me chama, ninguém me pergunta nada, ninguém espera que eu resolva nada.
Uma vez a minha mulher levou os miúdos para passar um fim de semana com a irmã e fiquei sozinho. Dormi até tarde, comi qualquer coisa, deixei pratos na cozinha, vi filmes péssimos e senti uma paz que me assustou. Quando eles voltaram fiquei sinceramente feliz, abracei os meus filhos, beijei a minha mulher, mas uma parte de mim também sentiu que a porta tinha fechado outra vez.
Amo-os, e talvez seja precisamente por amar que isto me dá tanta culpa. Como é possível desejar silêncio longe das pessoas que mais queremos perto? Tenho medo de falar com ela e ela ouvir “quero ir embora”, quando na verdade nem eu sei o que quero.
Talvez eu só esteja cansado. Talvez eu tenha desaparecido dentro dos papéis que aceitei durante anos. O que mais me assusta é imaginar que um dia ela me pergunte se sou feliz e eu precise escolher entre magoá-la com a verdade ou continuar a mentir sem saber ao certo qual das duas coisas é mais cruel.
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