Fui criado pelos meus avós porque os meus pais emigraram quando eu tinha dois anos, e eu nunca os perdoei, e eles acham que isso está resolvido.
Foram para França em 1987. Deixaram-me na aldeia com a minha avó, como meia aldeia fez. Vinham no Natal e em agosto, com os carros carregados, e durante três semanas eu era o filho deles e no resto do ano eu era neto.
Isto não era crueldade e eu sei. Era a única coisa que se podia fazer. Eles trabalharam como animais e mandaram dinheiro todos os meses e construíram a casa onde eu vivi.
Voltaram em 2001, quando eu tinha dezesseis anos. E foi aí que tudo correu mal, porque eu não precisava de pais aos dezesseis, eu precisava de pais aos cinco.
A minha mãe chegou com regras. Horas de entrada. Perguntas sobre notas. E eu fui um filho horrível, e disse-lhe coisas naquela cozinha que ainda hoje me ardem, e a pior foi: "Tu não tens o direito, tu foste-te embora."
Eu tinha dezesseis anos e tinha razão e não tinha nenhum direito de o dizer àquela mulher.
A minha avó morreu em 2009 e eu desfiz-me. Mais do que me desfarei pelos meus pais, e eles viram-me a desfazer-me, e nunca ninguém falou disso.
Hoje tenho quarenta anos e tenho um filho de seis. E quando eu brinco com ele no chão eu penso na minha mãe aos trinta e dois anos a limpar escadas em França sem ver o filho dela crescer, e eu começo a entender, e entender não é a mesma coisa que sentir.
Vemo-nos aos domingos. Falamos de futebol e da obra.
Há mais filhos de emigrantes aqui? Vocês conseguiram falar disso em algum momento com eles?
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