Vendi o meu táxi em janeiro depois de trinta e quatro anos e não foi por causa das aplicações como todos pensam.
Comecei em 1990, com vinte e seis anos. A licença era do meu sogro e comprei-lha em prestações até 1997.
Trinta e quatro anos, Lisboa. Fiz o terramoto de clientes todo: turistas, médicos, senhoras que iam à missa, bêbedos às quatro da manhã, uma mulher a ter um bebé em 2004 na Avenida de Ceuta.
Quando chegaram as aplicações, em 2016, eu fui dos que fizeram greve. Estive na Praça do Comércio com o carro. E depois, em 2018, eu entrei numa das aplicações, porque a conta era a conta, e eu tive de olhar para a cara de colegas meus que ficaram de fora.
Mas não foi isso que me fez vender.
O que me fez vender foi perceber, por volta de 2022, que eu já não falava com ninguém.
É uma coisa pequena e demorei anos a ver. No táxi antigo, a pessoa entrava à frente ou atrás e dizia para onde ia, e falava. Trinta anos de conversas. Eu sei coisas sobre esta cidade que não estão escritas em sítio nenhum porque me foram contadas entre a Estefânia e Alcântara.
Com a aplicação, o cliente entra e já está tudo tratado. O destino está no telefone, o pagamento está no telefone, e nove em cada dez pessoas vêm com auscultadores. E está tudo bem — eles não me devem conversa nenhuma, e eu também não quero ser o motorista que fala.
Mas ao fim de seis anos eu fazia nove horas por dia e dizia em média umas quarenta palavras.
Contei. Houve um dia, em 2023, uma terça-feira, em que eu fiz onze viagens e não disse uma frase completa a ninguém. Cheguei a casa e a minha mulher perguntou como foi o dia e eu não consegui responder, não por tristeza, por falta de prática.
E depois há a avaliação. Cinco estrelas. Trinta e quatro anos de profissão e eu cheguei a verificar, de noite, na cama, se tinha descido de 4,8 para 4,7. Eu, com cinquenta e nove anos.
Vendi a licença em janeiro. Tenho agora um trabalho ao balcão numa loja de peças de automóvel, ganho menos, e falo com gente o dia inteiro.
Não escrevo isto contra as aplicações. Elas resolveram problemas reais e quem diz o contrário não andava de táxi em 2010 à uma da manhã na Amadora.
Escrevo porque a conversa é sempre sobre o dinheiro e sobre as licenças, e ninguém fala do que o trabalho se tornou por dentro.
Há mais taxistas, ou motoristas de aplicação? Vocês sentem isto? E quem saiu: arrependeu-se do dinheiro? Eu perco cerca de trezentos euros por mês e durmo melhor, e às vezes acho que fiz a conta errada.
Comentários