Pela primeira vez em muitos anos a minha vida está calma e eu não consigo desfrutar porque tenho certeza de que algo vai dar errado. O trabalho está bem, a relação está bem, não há ninguém doente na família, consegui finalmente pagar uma dívida antiga.
Era para eu respirar. Em vez disso, fico atento. Se o telefone toca tarde, penso em acidente. Se o meu chefe manda “podemos falar?”, já imagino demissão. Se passo um fim de semana muito bom, no domingo começo a sentir uma ansiedade quase supersticiosa, como se a felicidade tivesse uma fatura escondida.
Cresci numa casa onde períodos tranquilos eram frequentemente seguidos de algum problema: falta de dinheiro, brigas, doença, alguém perdendo trabalho. Acho que o meu corpo aprendeu que paz não é segurança, é intervalo. Há pouco tempo eu estava numa viagem que esperei meses para fazer e passei parte da tarde verificando e-mails de trabalho sem motivo.
Minha companheira falou: “você está tão ocupado esperando o problema que perdeu metade do dia bom”. Doeu porque era verdade. Sempre me considerei prudente, preparado, realista. Agora começo a perceber que talvez tenha transformado vigilância em personalidade.
Sobreviver a tempos difíceis ensina habilidades úteis, mas ninguém avisa quando essas habilidades deixam de proteger e começam a roubar a vida. Estou tentando aprender que um momento bom não é uma provocação ao destino e que aproveitar o presente não aumenta a chance de alguma coisa ruim acontecer depois.
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