Eu amo minha irmã, mas tenho vergonha de admitir que sinto inveja da vida dela. Ela sempre foi a pessoa mais desorganizada da família, a que mudava de emprego, terminava relacionamento, se enrolava com dinheiro, ligava pedindo ajuda. Eu fui o contrário.
Estudei, trabalhei, me organizei, economizei, fiz tudo “certo”. Só que nos últimos anos parece que a vida resolveu premiar ela. Encontrou uma pessoa incrível, conseguiu um trabalho melhor do que o meu, comprou uma casa numa oportunidade absurda e ainda teve filho numa fase em que tudo parece estar dando certo.
Eu fico feliz por ela de verdade, mas também sinto uma coisa amarga que eu odeio. Principalmente porque eu passei anos ouvindo que eu era “o responsável” e que ela precisava aprender comigo, e agora sou eu que fico olhando a vida dela pensando onde foi que fiquei pra trás.
O pior é que comecei a reparar nos defeitos da felicidade dela como se meu cérebro precisasse equilibrar as coisas. Se ela reclama do marido, eu sinto um alívio pequeno. Se fala que está cansada com a criança, eu penso “então não é perfeito”.
Logo depois eu me sinto uma pessoa horrível. Eu nunca sabotaria nada dela, jamais desejo mal, mas é como se o sucesso dela tocasse numa ferida minha que não tem nada a ver com ela. Eu percebi que não estou com inveja do que ela tem, estou com raiva da ideia de que eu fiz tudo corretamente e mesmo assim não recebi a vida que achei que receberia.
Talvez a mentira seja essa, achar que a vida funciona como recompensa por bom comportamento. E é difícil aceitar isso sem transformar a felicidade de quem eu amo numa provocação pessoal.
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