Tenho uma relação estranha com dinheiro porque ganho bem, economizo bastante e ainda assim vivo como se uma catástrofe financeira estivesse prestes a acontecer. Eu cresci vendo meus pais brigarem por conta atrasada, cartão, aluguel, empréstimo.

Teve época em que ouvi conversa sobre cortar luz, sobre pedir dinheiro emprestado, sobre escolher qual conta pagar primeiro. Hoje minha realidade é completamente diferente. Tenho reserva, emprego estável, não tenho dívidas graves. Mesmo assim gasto dinheiro com uma angústia absurda.

Uma viagem vira planilha. Comprar um eletrodoméstico vira semanas pesquisando mesmo quando o antigo está quebrando. Se gasto mais num restaurante, volto pra casa arrependido. Minha parceira diz que eu transformo qualquer prazer em reunião financeira e ela está certa.

O pior é que eu sempre achei que ser responsável com dinheiro era uma qualidade, mas comecei a perceber que talvez eu tenha levado isso pra um lugar doentio. Eu não economizo apenas para realizar planos, economizo porque o número na conta me dá sensação de segurança.

Quanto maior ele fica, mais difícil fica gastar. Parece contraditório. Eu trabalho pra ganhar dinheiro e depois tenho medo de usar. Já recusei viagens que poderia pagar tranquilamente, adiei compras necessárias, dei presentes menores do que gostaria e até deixei de ajudar alguém porque meu primeiro pensamento foi “e se eu precisar depois?”.

Eu não me considero avarento porque não tenho prazer em acumular dinheiro pelo dinheiro em si, mas talvez o medo produza o mesmo resultado. E isso me fez pensar numa coisa desconfortável: passar a vida inteira preparando-se para um desastre futuro também pode ser uma forma de perder a própria vida, só que socialmente parece responsabilidade.

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