Tenho medo de hospitais desde que acompanhei o meu pai numa urgência há alguns anos e isso está a tornar-se um problema porque agora evito até consultas simples. O cheiro, as luzes, o som das máquinas, pessoas em macas, tudo me devolve para aquela noite.
O meu pai ficou bem, mas durante algumas horas achámos que podia acontecer o pior. Desde então, se tenho de fazer análises começo a adiar. Se alguém da família diz que vai ao hospital, sinto imediatamente o coração acelerar. Quando entro numa urgência, não consigo deixar de olhar para as portas e pensar em maneiras de sair.
Sei racionalmente que hospital é justamente o lugar para onde se vai quando se precisa de ajuda, mas o meu corpo aprendeu o contrário: hospital significa que algo muito mau está prestes a acontecer. A pior parte é que desenvolvi uma contradição absurda.
Tenho medo de doenças e ao mesmo tempo evito o lugar onde uma doença poderia ser descoberta cedo. Já escondi sintomas da minha companheira para não ter de ouvir “marca consulta”. Depois fico em casa a pesquisar coisas na internet e assusto-me ainda mais.
É como se eu preferisse o medo imaginário ao diagnóstico real, porque enquanto não sei nada ainda consigo fingir que tenho controlo. Pergunto-me quantas decisões nossas são realmente racionais e quantas são apenas tentativas sofisticadas de nunca sentir outra vez um medo antigo.
Comentários