Eu amo o meu filho, mas às vezes arrependo-me da vida que perdi quando me tornei pai e tenho pavor de alguém interpretar isso como se eu não o amasse. Antes eu podia decidir numa sexta-feira que ia viajar no sábado. Podia dormir quando estava doente.

Podia mudar de emprego com mais risco. Podia sentar num café por duas horas sem olhar para o relógio. Hoje tudo precisa de logística. Escola, consultas, atividades, refeições, roupas, horários, dinheiro. Amo vê-lo crescer, amo quando ele corre para mim, mas sinto saudade da versão de mim que tinha espaço mental.

Também sinto saudade do meu casamento antes de sermos pais. Antes falávamos de nós. Agora falamos de lancheira, febre, reunião da escola, quem busca, quem fica, quem compra. Uma vez disse à minha mulher que sentia falta “da nossa vida antiga” e ela começou a chorar porque achou que eu queria voltar no tempo e apagar o nosso filho.

Não era isso. Mas percebi que quase não existe linguagem social para dizer “amo profundamente o meu filho e mesmo assim sinto luto pela vida que deixei”. Parece que temos de escolher uma narrativa: ou a parentalidade foi a melhor coisa de sempre ou somos ingratos.

Eu queria só admitir que algo pode ser maravilhoso e muito pesado ao mesmo tempo.

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