Eu não quero cuidar dos meus pais sozinho quando envelhecerem e sinto-me um filho horrível por pensar nisso. Amo os dois e faria o necessário se houvesse uma emergência. O problema é que a minha família já fala como se fosse óbvio que a responsabilidade principal vai cair em mim porque moro mais perto, tenho trabalho flexível e “sou o mais responsável”.

Tenho irmãos. Eles vivem a vida deles, têm filhos, compromissos, e todo mundo fala como se isso fosse uma razão válida para eu absorver o que sobrar. Eu vi uma tia cuidar da minha avó durante anos praticamente sozinha enquanto os outros apareciam aos domingos e diziam como ela era uma filha maravilhosa.

Ela perdeu saúde, emprego, casamento quase acabou. Toda a gente elogiava o sacrifício, ninguém dividia o sacrifício. Tenho medo desse futuro. Eu quero ajudar meus pais sem desaparecer dentro do cuidado deles. E só de dizer isso já parece frieza.

Na nossa cultura familiar existe uma ideia de que quem ama cuida sem calcular. Mas curiosamente essa frase costuma ser dita por quem calcula muito bem quanto pouco vai cuidar. Eu quero começar a conversar sobre divisão de responsabilidades antes de existir crise, mas sei que alguns vão achar ofensivo.

Talvez seja melhor parecer egoísta agora do que virar ressentido depois.

visualizações1 comentários0 reações0
Responder com uma publicação

Sentiu que falava de você?

Sua história também tem lugar aqui. Sem nome, sem e-mail, sem nada que aponte para você.

Escreva sua história

Comentários

Ainda não há comentários publicados.
Seu comentário vai aparecer na hora.
Leia mais Dizer não quando você passou a vida dizendo sim Dizer sim custa umas horas; dizer não custa uma conversa incômoda. As horas parecem mais baratas, até que se s…