Sou bombeiro voluntário e em junho de 2017 não cheguei a tempo a uma estrada.
Não vou dizer qual é a estrada e quem conhece aquele mês sabe de que estou a falar.
Tenho quarenta e nove anos e sou voluntário desde os vinte e três. Durante o dia trabalho numa serralharia.
Daquele dia eu não vou escrever os detalhes, porque não são meus para contar e porque há famílias que leem tudo o que se escreve. Vou escrever só isto: fomos encaminhados para um lado, a coisa veio do outro, e a decisão não foi minha e eu obedeci a uma ordem que estava certa com a informação que havia àquela hora.
Oito anos a repetir essa frase. "Com a informação que havia àquela hora."
O que ninguém me explicou é que isso não serve de nada às três da manhã.
Houve apoio psicológico, houve sessões, e eu fui a quatro e desisti porque na sala estavam colegas meus e nenhum de nós ia falar a verdade à frente dos outros.
O que eu faço em vez disso: trabalho. Fui a todas as formações desde então. Fui o primeiro a chegar a tudo durante oito anos. A minha mulher diz que eu não estou a servir, estou a pagar.
E agora o que me trouxe aqui. Entrou um rapaz novo na corporação, vinte e dois anos, e ele olha para mim como eu olhava para o meu instrutor. E eu não sei se tenho o direito de o ensinar, nem o que é que eu lhe digo sobre o dia em que ele chegar tarde.
Há aqui gente dos operacionais? O que é que vocês dizem aos novos?
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