Tenho trinta e quatro anos, ganho mil e cem euros, vivo com os meus pais e já desisti de sair de casa.
Sou licenciado. Trabalho numa empresa de informática em Lisboa, contrato sem termo, há seis anos. Mil e cem líquidos.
Um T1 em Lisboa, hoje, nos sítios onde eu podia viver: entre novecentos e mil e duzentos. Não é uma questão de poupar melhor nem de cortar no café. É aritmética.
Vivo no quarto onde cresci, em Loures. Faço cinquenta minutos de transportes em cada sentido. Os meus pais são excelentes e isso faz parte do problema: não há nenhum conflito, não há nada de que eu me possa queixar, e por isso não há nenhuma data.
Em 2021 eu fazia contas todos os meses numa folha. Em 2023 fazia de vez em quando. Este ano não fiz nenhuma vez, e dei por isso em setembro, e foi aí que eu percebi que eu já não estou a tentar.
Tive uma relação de três anos que acabou em 2024, e acabou por isto, embora ninguém tenha dito isto em voz alta. Tínhamos trinta e dois anos e dois quartos de adolescente a vinte quilómetros um do outro.
Metade dos meus amigos emigrou. Não é uma expressão. Eu contei: dos onze do meu curso com quem eu falava, seis estão fora.
E o que eu não digo a ninguém é o que eu sinto quando eles publicam as casas deles. Não é inveja. É uma coisa mais estranha, como se eu tivesse ficado numa fila errada em 2015 e não houvesse como mudar de fila.
Alguém aqui saiu de casa depois dos trinta e cinco? Como? Preciso de uma história real, não de um plano.
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